Na mesma semana que o Conselho Nacional de Justiça decidiu, numa votação sem estardalhaço, que os cartórios deveriam converter as uniões civis de casais homossexuais em casamentos, como também se dá com os casais heterossexuais, e que também os cartórios deveriam receber e deferir os pedidos de casamento civil de casais do mesmo sexo, a Panini Comics publicou como história de capa da revista X-Men Extra o casamento do mutante gay, Estrela Polar, com seu namorado, Kyle. A Panini é a distribuidora no Brasil das revistas em quadrinhos da DC Comics, editora do Super-Homem, Mulher-Maravilha e Batman, e da Marvel Entertainment, que publica Homem-Aranha, Capitão América, Homem-de-ferro, Hulk, Thor, Vingadores e os X-Men, desde 2002, quando substituiu a Editora Abril. Contemos primeiro quem é o Estrela Polar.
Jean-Paul Beaubier foi criado em 1979 pela dupla lendária dos quadrinhos Chris Claremont e John Byrne e teve sua primeira aparição em Uncanny X-Men 120. Ele é franco-canadense, nascido em Montreal, e possui os poderes de super-velocidade, vôo, além de força e resistência sobre-humanas. Sua história nos quadrinhos começa com ele sendo um atleta mundialmente conhecido que ganhava as competições de esqui graças aos seus poderes de supervelocidade, desmascarado, ele teve a oportunidade de se juntar a equipe de super-heróis que protegia o Canadá, a Tropa Alfa. Nesta equipe estavam Wolverine; o Guardião, o líder da equipe; os seres místicos Sasquatch e Pássaro da Neve; o feiticeiro indígena Shaman e a irmã gêmea de Jean-Paul, com os meus poderes, Aurora. A Tropa Alfa surgiu apenas para fazer parte da história do passado do Wolverine, porém seus personagens se tornaram tão carismáticos que em 1983 eles ganharam sua própria revista, Alpha Flight, escrita pelo mestre dos quadrinhos, John Byrne, que teve então a oportunidade de desenvolver os personagens criados como coadjuvantes para os X-Men.
Quando Alpha Flight foi lançada já era a intenção de John Byrne de fazer que Estrela Polar fosse gay, porém o editor-chefe da Marvel na época, Jim Shooter, foi terminantemente contra, apoiando-se no Comic Code Authority, que autorregula a publicação de revistas em quadrinhos nos Estados Unidos. Porém, apesar da proibição, Byrne continuou com sua premissa sobre o personagem. Jean-Paul, por exemplo, nunca era visto com mulheres; os próprios personagens discutiam a sexualidade de Jean-Paul estranhando porque ele nunca estava acompanhado, ele respondia que estava muito dedicado a se tornar um campeão olímpico para se dedicar as mulheres. Somente em 1992, em Alpha Flight 106, Scott Lobdell teve a permissão de tirar Estrela Polar do armário e ele finalmente disse: "Eu sou gay!", fazendo a revista esgotar-se das bancas em uma semana. Apesar do sucesso, das questões que envolviam sua sexualidade serem abordadas na revista em quadrinhos, com o cancelamento da Alpha Flight no número 130, em 1994, a sexualidade do herói canadense foi praticamente ignorada por qualquer outro escritor. Houveram citações a sexualidade do Estrela Polar, quando ele aparecia como convidado em outros títulos, como por exemplo do Hulk, escrito por Peter David, que também havia introduzido o segundo personagem gay assumido do universo Marvel, Hector, do grupo Panteão.
Somente em 2002, pelas mãos de Chuck Austen, Estrela Polar foi reintegrado aos X-Men ao ser convidado pelo professor Xavier a integrar a escola. Neste convite, Austen mostra ao que veio pois a primeira discussão entre Estrela Polar e o Professor X é como ele poderia ser professor de crianças se ele era gay, Xavier não demonstra nenhum preconceito, e Estrela Polar passa a fazer parte do time de professores do Instituto Xavier de Ensino Avançado, ensinando Economia, Francês e dando aulas de vôo. Austen explora ricamente o tema da sexualidade de Jean-Paul em suas histórias fazendo-o ter uma paixão platônica pelo X-Man, Homem de Gelo; além de que como professor, ele se torna um modelo para o único estudante gay do Instituto, Anole, de apenas 15 anos. Quando Austen deixou a revista em 2004, Estrela Polar também deixou a equipe, conta-se que ele passa a fazer parte da S.H.I.E.L.D., um grupo de espiões do governo americano, após ser controlado mentalmente pela HYDRA, o grupo de espiões inimigo. Ele só retorna aos X-Men em 2008, com a saga Secret Invasion, na qual a Terra é invadida por extraterrestres capazes de mudar de forma.
A partir do ano seguinte descobrimos que Jean-Paul está namorando o seu agente, Kyle Jinadu, que mora no Canadá, enquanto ele continua nos Estados Unidos junto com os X-Men. Além do namoro, as conversas de Jean-Paul com os outros personagens da série nos quadrinhos não deixa nenhuma dúvida sobre a sexualidade dele. E em 2012, publicada com atraso de 1 ano no Brasil, realiza-se o casamento dele e Kyle na revista Astonishing X-Men 51. E eu li esta história essa semana. Primeiro é bom explicar que a Panini Comics, no Brasil, não publica apenas uma revista por mês, a tradição brasileira é um mesmo título conter várias números da mesma revista por mês, neste X-Men Extra 136.1, por exemplo, se reuniu os quatro números de Astonishing X-Men (48-51) que contam sobre o casamento entre o herói e seu agente. Resumindo a história: Kyle decide vir morar nos EUA junto com o namorado, ao mesmo tempo os X-Men da Escola Jean Grey para Jovens Mutantes são atacados pelos Carrascos, que estão sendo manipulados por uma vilã misteriosa. Em meio aos ataques, Jean-Paul pede o Kyle em casamento para provar-lhe que ele estava comprometido de verdade com o relacionamento deles.
O casamento ocorre nos jardins da Mansão Xavier, onde é a Escola Jean Grey e tem a presença de quase todos os mutantes das séries dos X-Men, além dos membros da Tropa Alfa e alguns Vingadores. Uma sequência de dos quadros me chamou atenção, reproduzo abaixo:
A sensibilidade do roteiro de Marjorie Liu não deixou de fora personagens em dúvida se eram a favor ou não do casamento; ai em cima ela cita dois, mas em determinada passagem da história, o próprio Estrela Polar afirma que nem todas as pessoas que ele convidou compareceram ao casamento; Marjorie Liu deixa claro que os personagens da Marvel, apesar de heróis, também tem seus preconceitos, eles não são perfeitos e, portanto, é normal encontrar entre eles pessoas homofóbicas também. A história é uma clássica história de casamento nos quadrinhos, como foi do Sr. Fantástico e a Mulher-Invísivel, como foi a do Homem-Aranha e Mary Jane, como foi o casamento de Ciclope e Jean Grey e também o de Pantera Negra e Tempestade, todos com a tradição da capa da revista ser uma foto dos noivos. Foi, para mim, emocionante. Não porque a história foi linda, foi comum, porém eu comecei a ler X-Men nos idos de minha adolescência porque o fato deles serem odiados e temidos por terem nascido diferentes me tocava profundamente, ler nestas páginas que eu acompanho desde que eu era aquele menino que sofria
bullying na escola, o primeiro casamento entre pessoas do mesmo sexo em uma revista em quadrinhos de super-heróis me emocionou muito. E acho que essa, definitivamente, foi a melhor maneira de comemorar o Dia Internacional Contra a Homofobia e Transfobia.